
Manhã suave, manhã tranquila; o sol desponta lá para os lados de Carvalho de Egas, Vila Flor... Beatriz, moça alegre e ar decidido, dormia envolta em sonhos cor-de-rosa. A sua felicidade era tanta que, mesmo dormindo, deixava escapar, por entre os lábios, um sorriso sereno e encantador! Na cozinha, sua mãe, a Senhora Júlia, preparava, com familiares e amigas, as últimas sobremesas: leite-creme torrado e o arroz doce bordado com canela. O Senhor António ajudava os jovens a colocar o arco de flores na porta principal da capela de Nossa Senhora do Rosário.
Dentro de poucas horas iria, junto ao altar, receber o José, o seu grande amor. A festa estava quase a sair.
Pelas ruas enfeitadas, todos os habitantes da aldeia caminhavam em direcção à casa da noiva, levando consigo os seus presentes. O Joaquim pastor levava um cabrito; o Tio Alberto carregava um anho; a Ti Rosa, da sua capoeira, tirou em preparou os dois galos mais bonitos que criara. Mais atrás seguia o Jorge e a Margarida com meia vitela... e agora chegavam os bolos da Tia Maria; os económicos e as súplicas; a Ti Claudina, numa cesta muito enfeitada, levava licores e os rebuçados de açúcar. Como ficou linda aquela mesa!
O sino tocou; também ele se associava a esta festa. Beatriz acordou, abriu a janela e sorriu, sorriu de felicidade. Ia casar. Vestia agora o seu fato de noivado. Era um vestido cor de pérola; em branco eram os sapatos de cunha, as meias de seda e um véu curto. Em cima da mesa do quarto, para ela levar, estava um lindo ramo de açucenas. A hora de saída aproximava-se e Beatriz desceu as escadas em direcção à sala, onde uma multidão de gente a aguardava. Tudo lhe parecia belo. Radiante, vai em cortejo para a Capela.
Porém, pelo caminho, cruza-se com uma mulher (desconhecida) que a olha intensamente. Estremece, não sabe bem porquê, mas apercebe-se que algo estranho está a acontecer.
A cerimónia do casamento decorre normalmente. Há banquete, foguetes, baile, tudo como estava previsto. O dia chegou ao fim e, de mãos dadas, Beatriz e José recolhem à sua casa. Uma casa pequena de granito, muito arranjada; havia toalhas de linho e flores, por cima das mesas. No quarto, a colcha e os lençóis de linho brilhavam de brancos que eram. Na mesa-de-cabeceira um castiçal de esmalte suportava uma vela que criava um ambiente idílico... finalmente Beatriz teria só para si, o José que ela tanto amava.
Este, agora, longe de todos os que fizeram a festa, em vez de abraçar a sua amada, deitou-se, dizendo-se mal disposto e cansado daquele longo e enfadonho dia.
Beatriz não teve resposta para esta atitude e adormeceu pensando que um novo dia viria e, de certeza, tudo seria diferente. Outros dias amanheceram e o Zé, sempre distante, apenas discutia sem revelar o amor que noutros tempos dizia sentir por ela. Os anos endureceram os seus corações e todos os sonhos de Beatriz foram caindo, dia após dia. Sozinha, (o marido chegava sempre muito tarde a casa) olhando para o passado, de rosto fechado e coração amargurado. Beatriz sai de casa. Vagueia pelo monte e toma a direcção de Seixo de Manhoses. A noite caía cada vez mais escura. O vento gélido percorreu-lhe o corpo e de, repente, sente sobre o seu ombro uma mão pesada. Uma voz rouca fá-la parar, recordando-lhe o longínquo dia do seu casamento. Esta voz disse-lhe ainda, que era a mesma que a viu partir para a Capela arrebatando o homem da sua vida, por isso, jurou tornar as suas vidas num inferno, e agora, com os anos a pesarem e suas almas e corações desfeitos, os iria transformar, a fim de perpetuar a sua existência de “mal casados” em duas pedras gigantes, voltadas de costas uma para a outra.
Passariam a ser conhecidos pela “Fraga dos Mal Casados”.
Fonte: OLIVEIRA, Maria Isabel da Costa Nunes Cardoso Castro – Memórias: Era Uma Vez... Lenda da “Fraga dos Mal Casados” de Carvalho de Egas, Vila Flor: Agenda Cultural, Maio-Agosto de 2007, pp. 2 e 3.